A vocação humana na Doutrina Social da Igreja Católica

09-08-2011 06:19

 

 

Pe. Gilberto Orácio de Aguiar[1]

 Especialista em teologia e História; Mestre em Ciências da Religião e Doutorando em Ciências Sociais pela PUC/SP

  

“Mas vós sois a gente escolhida, o sacerdócio régio, a nação santa, o povo que ele adquiriu, a fim de que proclameis os grandes feitos daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa. Vós sois aqueles que antes não eram povo, agora, porém, são povo de Deus; os que não eram objeto de misericórdia, agora, porém, alcançaram misericórdia” (1Pd 2, 9 – 10).

 

         A Doutrina Social da Igreja Católica (DSI) é o conjunto de normas e ensinamentos da Igreja Católica, que baseados na Sagrada Escritura, nos Santos Padres e no ensinamento dos Papas, refletem o verdade iro sentido do ser humano e sua relação com a sociedade. Quando falamos em DSI é impossível não considerá-la a partir do ser humano, pois é a partir desse que a mesma tem a sua razão de ser. E porque toda essa atenção direcionada ao ser humano?

         No plano da criação divina a Sagrada Escritura destaca o ser humano como criatura de Deus (Cf. Sl. 139, 14 – 18). Além disso, aponta o que o faz especial criatura de Deus quando assim se expressa: ”De us criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gn. 1, 27). Assim, o ser humano é projetado para o centro, o vértice da criação divina: no ser humano, produzido a partir da terra, Deus sopra-lhe nas narinas o hálito vital, sopro da vida (Cf. Gn. 2, 7). Deus ao criar o ser humano criou tudo para o mesmo; mas, o ser humano foi criado para servir e amar a Deus. Aqui está sua maior vocação. Ou seja, a base de toda vocação humana. Daí que “por ser à imagem de Deus, o indivíduo humano tem a dignidade de pessoa: ele não é apenas uma cosa, mas alguém. É capaz de conhecer-se, de possuir-se e de doar-se livremente e entrar em comunhão com outras pessoas, é chamado, por graça, a uma aliança com o seu Criador, a oferecer-lhe uma resposta de fé e de amor que ninguém mais pode dar em seu lugar”[2]. O ser humano não é qualquer coisa, mas situa-se no ápice da preocupação divina. É como nos diz o Salmo 8, 5 - 7: “Que coisa é o ser humano, para dele te lembrares, o filho do homem para o visitares? No entanto o fizeste só um pouco menor que um deus, de glória e de honra o coroaste. Tu o colocaste à frente das obras de tuas mãos. Tudo puseste sob seus pés...” 

         Como imagem de Deus o ser humano recebe do próprio Criador uma tarefa especial que se estende a toda criatura humana: submeter a terra e dominar sobre todo ser vivente (Cf. Gn. 2, 5- 6). Esta interpelação inicial, enquanto compromisso decorrente de sua vocação originária foi muitas vezes deturpada, pois foi mal entendida como uso dos bens de forma despótica e destituída de bom senso. Entretanto, a tarefa da humanidade diante de sua vocação humana é ‘cultivar e guardar’ (Cf. Gn. 2, 15) a obra da criação. A maior vocação do ser humano é cultivar e cuidar da terra. É administrar o que lhe foi confiado pelo criador para o melhor usufruto possível dos bens colocados por Deus à disposição da humanidade inteira. Os bens criados por Deus e não pelo ser humano, deverão estar sob sua responsabilidade como um dom gracioso oferecido por Deus à humanidade. Cultivar e cuidar da terra tem o sentido de não entregá-la a si mesma, abandonando-a. Mas, domina-la e guardá-la implica em o ser humano ter o comportamento de um rei sábio que cuida de seu povo ou de um pastor, do seu rebanho.

         A vocação do ser humano, diante da DSI é preocupar-se com o outro. É sair de si. Vencer o egoísmo como conseqüência do pecado que divide, separa as pessoas e faz os seres humanos pensarem somente em si. Se as pessoas interiorizarem e executarem a sua vocação, teremos uma humanidade transformada, onde todos/as teremos espaço para vivermos uma vida com maior dignidade e sem exclusão. A vocação do homem e da mulher exercidas na responsabilidade humana para com os outros passa pelos serviços de cooperação com a v ida das pessoas alcançando aspectos como a solidariedade e o cuidado com os mais desprotegidos e últimos da sociedade. Todas as expressões vocacionais são portadoras do germe da salvação oferecida por Jesus ao homem todo e a todos os homens. Salvação esta que começa a caracterizar-se no cotidiano das lutas históricas, pois tudo o que foi criado é bom e desejado pelo Criador e ainda por que o Filho de Deus, Jesus Cristo, se tornou um de nós. A salvação definitiva, entretanto, situa-se num futuro, quando vocacionados por Deus com todo o universo (Cf. Rm 8, 18 - 23), participaremos da ressurreição de Cristo. É dessa contextualização que se recebe força e estímulos para se viver no dia a dia a dimensão da ajuda, do cuidado, da hospitalidade e da atenção para com quem sofre. A base para toda vocação é a compreensão de que a nossa vida é um serviço que culmina na entrega total de nossa existência em favor da vida dos outros (Jo. 10,10) como o foi a vida de Jesus entregue por amor.      



[2]. Catecismo da Igreja Católica, nº 357.